Testa da Vaca

Archive for Fevereiro, 2009

G.3

Segunda-feira, Fevereiro 23rd, 2009

Olha-se no espelho que duplica os planos e vê-se cansado, cheira-se e sente na roupa o libertar do fumo dos cigarros. Pára, ainda voltado para o espelho, abre a porta e dirige-se para a direita, enquanto saca do bolso as chaves, roda a fechadura, tira a chave, bate a porta, pousa a chave e vê a rua pela janela da sala. Vai à cozinha, ao frigorífico buscar água, pega num copo que quase enche e bebe. Sem tirar a mão da garrafa, olha o nariz dentro do copo, já sem água, também nisto se demora. Pousa o copo, fecha a garrafa que vai de novo para o frigorífico, que entretanto dispara, e vai para o quarto.
Despe-se e deita-se sobre os lençóis, fecha os olhos e tenta ouvir o silêncio que nem dentro dele consegue encontrar, antes de adormecer.

Eu não queria ter razão.

Terça-feira, Fevereiro 17th, 2009

Cheira-me que os “estudos” que determinavam imperativa a construção de um novo aeroporto equivocavam-se. Como um jovem no início da puberdade; que apontando num caderno os resultados da observação-medição momentânea do instrumento admitia ser, ele próprio, a construção de uma nova ponte.

G.2

Segunda-feira, Fevereiro 16th, 2009

Tira o pé do pedal e volta a ouvir o motor do carro, dá sinal à direita, sobe a rampa do passeio, procura o comando do portão, pressiona o botão, espera e entra na garagem, as luzes acendem automaticamente e o portão fecha-se, o trabalhar do carro ecoa nas paredes e a manobra é executada lentamente até parar num silêncio momentâneo. Depois o trinco da porta estala, deixa as coisas no banco de trás, fecha a porta, abre a porta da caixa de escadas que se fecha sozinha, pressiona o botão do elevador e enquanto espera repara que a lâmpada das escadas não se acendeu. Chega a luz pelo vidro da porta do elevador que ele abre, entra na cápsula, leva o dedo ao botão e sobe.
Tem o corpo dorido.

G.

Quinta-feira, Fevereiro 12th, 2009

Desce a rua devagar e goza a inércia de um despertar de cidade. Olha para um lado e para o outro, sente o pescoço e o torcer das costas mais do que o acelerar dos corpos que caminham nos passeios. Tudo embala sob os raios de nascente para mais um dia que ainda não preenche o ar com uma sinfonia de barulhos. Da mesma forma que observa as pessoas isoladamente nota que os sons são ainda separados. O passar do autocarro e os ramos das árvores são ainda trechos autónomos em seu redor. Daqui a pouco junta-se um, e mais um acontecer, até que o fundo penetre tudo e os movimentos desenhem uma única acção, aí, mesmo cruzando-se em sentido contrário, os habitantes fazem parte de uma única realidade, onde nenhum gesto se pode compreender sem a devida referência a um contexto de crescente complexidade. E até a própria luz deixará de vir em fios que se estilhaçam nos objectos para iluminar mais de cima os acontecimentos que serão o próprio dia.

Há sexta sai à noite

Segunda-feira, Fevereiro 9th, 2009

Um trabalho duro nestes tempos de inverno, um trabalho não pago. Fá-lo por pura cidadania. É que assim, se anima a cidade. Deste modo, o centro vive resiste na espera do tempo quente.
Sai à noite para ver os bafos perderem-se no ar e a luzes brilharem desfocadas de tão molhadas, chega a casa encharcado com os pássaros a chilrear.
Sair à noite, no centro da cidade, é um acto heróico. Sabe que não lhe vão dar nenhuma medalha mas, mesmo assim, enfrenta o medo dos outros fechados em casa, de portas trancadas, metidos na ideia da crise. Na rua ele desempata entre as duas centrais de cerveja, está na economia. Na noite ele vê a cidade viva, com putas e tudo, histórias exóticas e comida curda, sítios que não precisam de fechar porque estão sós na rua. Uma rua inteira para um bar, já se sabe, fica cheio e hão de outros chegar.
Penso que se o centro fosse habitado por esse sonho que eles querem eu não tinha lugar para estacionar no Centro do Porto e tinha de ir de táxi como em Lisboa. (E no Porto é muito mais difícil apanhar um táxi.) Se as famílias felizes morassem no centro mandavam fechar os cafés e nós ficávamos no vortex sem nada que fazer, e ainda íamos para casa tentar adormecer.
Aposto que um dia, ainda vão reconhecer que o centro degradado é bom e que na falta de trabalho nos devíamos divertir.
É preciso ser cidadão…

Outra vez sorrir (mas mais triste)

Sexta-feira, Fevereiro 6th, 2009

Quase a fizeram acreditar que era fútil
quando reparava;
as rugas
por entre as nódoas do espelho.
Mas quereriam instituir pecado,
no preocupar-se consigo?
Não há creme que lubrifique
o mais-profundo-futuro, vindo ao de cima.
Não há massagens para um corpo a cismar.
Nem todo o pó-de-arroz
mata o enjoo,
nem todas as falsas morais
a devolverão embalsamada.
Tocava os papos com a falange
e a mão parecia-lhe gretar,
os braços inchavam da doença,
de ver todo o corpo murchar.
Queriam-lhe esconder o sentir,
como se fosse um problema de cosmética.
Até a fazem suspeitar
que nos olhos da velha fotografia,
contradizendo o sorrir,
era já isto que via.

Amar os inícios…

Quinta-feira, Fevereiro 5th, 2009

Amar os inícios e detestar os fins.
Porque, se “os fins determinam os meios”, resta-nos a liberdade de começar.
A liberdade de começar ou começar a liberdade?
É que, o que se pretende é esse espaço, desnecessário, que não serve para nada, e por isso, é livre. Que consome a produtividade na lógica perfeita de círculo desencontrado num qualquer desenho de criança.
Desenhar o quê? Brincar a quê? Escrever o quê?
A liberdade da criança que se levanta e deixa o desenho “por concluir”, porque lhe apetece, correr…
Correr para as coisas, mexer nas coisas, trazê-las nas mãos… mostrar nas pontas dos dedos o que se tem para dar.
“Não mexas nisso que estragas!”. Agora que sabemos que todo o conhecer esteve, aos pedaços, nas partículas negras, debaixo das unhas.
Depois, lavam-se as mãos, para começar a comer.
Depois, os dentes para começar a sorrir.
Depois, fecham-se os olhos para começar a…